22 March 2012

O tributo eclesiástico de Budapeste

O tributo eclesiástico de Budapeste


O tributo eclesiástico de Budapeste


A basí­lica de Szent Ist­ván (Santo Estê­vão) estava na lista dos monu­men­tos a visi­tar desde que mar­cá­mos a visita a Buda­peste. E, uma vez por cá, era difí­cil evitá-lo: o edi­fí­cio impõe os seus 96 metros de altura na linha do hori­zonte e serve como ine­vi­tá­vel ponto de refe­rên­cia nos pas­seios pela cidade. Deste lado do rio, Peste, ou do outro, Buda. O único edi­fí­cio que riva­liza em altura com a basí­lica é o do Par­la­mento, com os mes­mos 96 metros (é sim­bó­lico: o Estado e a Igreja são igual­mente impor­tan­tes). São os dois mais altos da capi­tal hún­gara e a lei impede cons­tru­ções mais altas.
O monu­mento é sobe­ja­mente conhe­cido dos livros, dos com­pên­dios de arqui­tec­tura neo­clás­sica, das suges­tões de ami­gos, dos guias. Quem tenha sen­tido o menor inte­resse pela His­tó­ria da Hun­gria e per­gun­tado ao Goo­gle sobre o iní­cio do reino asso­ci­ado à nação magiar, quem o tivesse feito daria de caras com a figura de Estê­vão I, pri­meiro rei do país e o res­pon­sá­vel pela ade­são hún­gara ao cato­li­cismo no ano 1000). A liga­ção é directa: cano­ni­zado em 1083, Estê­vão I é o patrono da basí­lica e é ali que se con­serva a sua mão direita (incor­rup­tí­vel, conta a lenda) mumi­fi­cada, quase um milé­nio após a sua morte.
É pos­sí­vel visi­tar toda a basí­lica de Szent Ist­ván online, de forma gra­tuita. Tanto o inte­rior como a famosa relí­quia. O que é mais do que os turis­tas que se apre­sen­tam às suas por­tas podem dizer. A entrada é paga: 200 forints ou um euro (que vale cerca de 290 forints). A amiga Olga tinha avi­sado dois dias antes e dado uma dica para nos fur­tar­mos ao imposto que nos iriam cobrar num ras­ga­dís­simo sor­riso e fre­nesi anfi­trião. Acon­se­lhava a que, como ela e comi­tiva, nos socor­rês­se­mos de Jesus e da his­tó­ria dos ven­di­lhões do tem­plo. “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comér­cio”, disse Cristo, segundo São João. Anotámos.
Che­ga­dos ao balcão-bilheteira que impede os visi­tan­tes de avan­çar para a nave da basí­lica, logo após a porta, per­gun­tá­mos ao padre de ser­viço o que pre­ten­dia ele de nós, para que pudés­se­mos seguir com a visita. Duzen­tos forints. Ou um euro. Era à esco­lha. Disse e incli­nou a cabeça; esfre­gou as mãos. Antes de res­ga­tar­mos as moe­das ao bolso, nova per­gunta: “Está a pedir-nos para pagar para entrar na casa de Deus?” Arre­ga­lou os olhos, inquietou-se, ama­re­lou o sor­riso e fez que não per­ce­bia. Ficou enta­lado, rubro – e bastou-nos; pagá­mos e seguimos.
Vimos tudo o que nos dei­xa­ram ver (o Flickr pode dar uma ajuda na recons­ti­tui­ção dos nos­sos pas­sos), acom­pa­nha­dos pelo eté­reo som de um aspi­ra­dor em fúria ope­rá­ria. O que não incluiu a mão mumi­fi­cada de Santo Estê­vão. Para a ver, era pre­ciso gas­tar mais uma moe­di­nha e com ela acen­der as luzes do reli­cá­rio. Sem a moe­di­nha tudo escuro, rien de relí­quia para os turis­tas, cren­tes ou não, devo­tos ou não.
Curi­oso é que o site da basí­lica esteja regis­tado no domí­nio .biz, nor­mal­mente reser­vado a negócios…

Os ban­cos da Szent István-bazilika, como os de outros luga­res de culto desta impor­tân­cia, estão inter­di­tos a visitantes